Se
estas paredes falassem...
Um dos casarões mais belos da Vila Mariana conta uma
história fascinante que envolve grandes personalidades
de nossa cultura. Desde o início do século 20,
filósofos, escritores, políticos e doutores
em ciências humanas ali se reúnem para discutir
a realidade brasileira.
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O
casarão da rua Morgado de Mateus, 615, começou
do sonho de Madalene e Eugéne Gazeau, o mais
antigo livreiro da cidade que serviu a várias
gerações de mestres e professores. Ele
veio da França em 1910 para montar com o irmão
a "Livraria Gazeau", o primeiro sebo do Brasil
- localizado na esquina da rua Benjamin Constant com
a Praça da Sé.
Era ali que os intelectuais tinham acesso aos importantes
livros da literatura mundial, até então
raros ou inexistentes no país. Gazeau não
era apenas um vendedor de livros, mas um filósofo
que estudava célebres pensadores brasileiros,
como o poeta Tobias Barreto e o filósofo Faria
Brito, e um orientador das leituras de sedentos clientes
por conhecimento. |
O livreiro conviveu com grandes personalidades. Eram seus
clientes Rodrigues Alves, Brasilio Machado, Candido Motta,
Alfredo Pujol, Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Martins Fontes,
Monteiro Lobato, entre outros que, desde aquele tempo, tinham
dificuldades de sobreviver com seu trabalho: "Alguns
deles, na época, não tinham dinheiro e meu pai
vendia os livros mais barato", conta sua filha, Odete
Gazeau Nascimento.
Gazeau casou-se como Madalene, em 1913, e planejaram construir
o belo casarão, concluído em 1930: "O projeto
era uma casa térrea, mas quando ela estava quase pronta,
decidiram que seria um sobrado", recorda Odete.
Em 1955, Eugéne Gazeau, ao atravessar a rua Sena Madureira,
foi atropelado por um caminhão. A notícia de
sua morte ganhou os jornais da época e o pesar de intelectuais
que buscavam seu conhecimento."A figura de Eugéne
Gazeau mereceu o respeito público e, em nosso meio,
seu nome representa uma tradição", escreveu
Ernesto Sépe para o jornal "Fanfulla".
"Ainda vivemos alguns anos na casa", que no começo
da década de 60 foi vendida para uma imobiliária.
O comprador - vejam só! - pretendia demolir o casarão
para construir um prédio. No entanto, um vizinho deputado
achou um absurdo e embargou a obra. O imóvel foi repassado
para a agência de publicidade Salles/Interamericana
e, em 1979, mais uma vez mudou de mãos. Foi adquirido
pelo Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento - uma instituição de pesquisa acadêmica
na área de ciências humanas na qual sociólogos,
cientistas políticos, filósofos, historiadores,
antropólogos, demógrafos, entre outros doutores,
analisam e desenvolvem estudos sobre a realidade brasileira.
"Lembro-me de que anos mais tarde tive que assinar um
papel solicitado pelo atual proprietário da casa e
o Fernando Henrique Cardoso estava lá", conta
Odete.
| O
fato é que o ex-presidente fez parte da direção
do Cebrap, fundada por professores universitários
afastados de suas funções pela ditadura
militar. Ao cruzar informações e buscar
as lembranças de antigos moradores, o Pedaço
da Vila descobriu que a casa – que a vizinhança
sempre pensou ser de FHC – era realmente da Cebrap,
mas utilizada para as reuniões da alta cúpula
do PSDB: "Fui em inúmeras reuniões
na rua Morgado de Matheus", revelou o secretário
das Subprefeituras Walter Feldman, em agosto de 2005,
durante sua entrevista ao jornal. |
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O imponente casarão contruído por Eugéne
Gazeau, graças ao vizinho deputado, não foi
demolido como tantos outros que guardavam muitas histórias.
Neste caso, o espírito de seu primeiro proprietário
também foi preservado: a casa, que na década
de 30 reunia célebres amigos para falar de política
e filosofia, continuou a abrigar encontros de pensadores:
na década de 80, os intelectuais do PSDB e, hoje, doutores
de diversas áreas das ciências humanas que analisam
a realidade brasileira e desenvolvem estudos para torná-la
melhor. O velho Gazeau deve estar feliz!
Texto Publicado no Jornal Pedaço da Vila em fevereiro
de 2006. |
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| diverCIDADE
- Revista Eletrônica do Centro de Estudos da Metrópole
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