Atualmente, Cazzolato cuida do acervo cartográfico
digital do Centro de Estudos da Metrópole (CEM/CEBRAP),
inclusive prestando assessoria aos pesquisadores na utilização
dos arquivos. Nessa entrevista à revista diverCIDADE,
ele fala sobre sua trajetória profissional e seu
conhecimento sobre a cidade.
O que você
fazia na Geomapas?
A empresa se dividia em três setores:
editorial, gráfico e comercial. Eu era responsável
direto pelo primeiro, onde as funções básicas
eram o planejamento, a pesquisa e a produção
cartográfica (originais). Na equipe editorial, dividíamos
o trabalho de pesquisa em três segmentos: mundo, Brasil
e Região Metropolitana de São Paulo. As informações
eram coletadas na imprensa, nos órgãos públicos,
em publicações internacionais, nas comunicações
de usuários ou em campo. Eu fazia também um
atendimento especial, explicando ao usuário por que
Piraçununga nos mapas não vinha escrito Pirassununga
ou à diretora de escola por que o Azerbaijão
era destacado no mapa da Ásia e não no da
Europa.
Quais foram suas
maiores realizações na empresa nesses 28 anos?
Procurei assegurar o padrão técnico
das edições, com o melhor tratamento das informações
e a mais acurada solução gráfica na
representação. Esses dois fatores contribuíram
para manter o diferencial que sempre deixou a Geomapas um
passo à frente dos seus concorrentes.
Quais foram suas
atividades profissionais desde que saiu da empresa Geomapas?
Projetos para clientes diversos, como uma
multinacional que planejou uma ação institucional
em que sua commodity era espacializada. Elaborei um mapa
do Brasil localizando as áreas produtoras de algodão,
os portos de escoamento para o mercado externo, a infra-estrutura
viária, além de quadros com valores de produção
etc. Impresso, o mapa foi distribuído entre clientes
e fornecedores. Também prestei assistência
editorial para livros didáticos de geografia, em
que repassei textos, ilustrações e mapas.
Quantos bairros
existem em São Paulo? Quantos deles você já
conheceu?
Existem cerca de 1500 bairros. Eu diria
que já conheci um terço deles, talvez a metade.
Mas conheço todos os 96 distritos.
Quais são
as histórias mais curiosas que aconteceram quando
elaborava os mapas da cidade?
Um dado curioso é que a pesquisa
de campo muitas vezes revela as falhas da cartografia oficial,
ou seja, aquela que se baseia apenas nos dados armazenados
em órgãos públicos. Isso aconteceu
na área do atual Parque Villa Lobos, onde na década
de 1950 foi aprovado um loteamento chamado Jardim Universidade.
O loteamento, no entanto, foi efetivado em apenas 10% de
sua área na década de 1980 – duas quadras
que acabaram desapropriadas, com o restante da gleba, para
a implantação do Parque Villa Lobos. Apesar
disso, as plantas de São Paulo traziam o desenho
e a identificação das vias do tal Jardim Universidade.
Quando fui fazer pesquisa de campo, onde esperava encontrar
ruas e casas, me deparei com um local em que só havia
matagal e entulho. Assim percebi como funcionava a maioria
das editoras de mapas e guias: obtinham cópias das
plantas da prefeitura, em que eram desenhados todos os loteamentos
registrados, independentemente de sua condição
física, e reproduziam essas informações
sem a devida atenção.
Em outro episódio, lembro que saímos
para uma pesquisa de campo e um dos pontos do trajeto incluía
a verificação, no distrito do Iguatemi (Zona
Leste), da efetiva existência de um grande conjunto
habitacional, do qual tínhamos obtido notícias
vagas. Chegando lá, tivemos uma surpresa. Não
se tratava de um simples conjunto, mas de um bairro inteiro,
completamente ocupado e com as ruas já denominadas
– era o Nova Conquista. Procurando por informações,
tivemos a sorte de encontrar a “prefeita” do
bairro, uma liderança local, que, muito simpaticamente,
nos recebeu em sua casa, com bolo e café, e nos forneceu
uma planta com o traçado e o nome de todas as ruas.
Também aconteciam histórias
curiosas no atendimento aos clientes. Em uma ocasião
atendi ao telefone um cidadão que insistia num pedido:
queria que a Geomapas fornecesse um documento comprovando
que o apartamento em que morava ficava mesmo em Santa Cecília.
Ele tinha comprado esse apartamento como localizado em Higienópolis,
e, após ter percebido o engano, pretendia acionar
juridicamente o corretor. Levei uns bons minutos para convencê-lo
da impossibilidade técnica da certificação.