E
assim fez-se a Luz
Antigo bairro
nobre, Luz luta hoje por sua revitalização
por Audrey Camargo
O grandioso conjunto arquitetônico
do bairro da Luz revela como o local foi nobre e valorizado.
Esse patrimônio, atualmente utilizado para abrigar
instituições culturais como o Departamento
do Patrimônio Histórico (DPH), a Sala
São Paulo, Pinacoteca do Estado, entre outros,
há alguns anos contrasta com a pobreza e a
degradação do entorno. A revista diverCIDADE
foi resgatar essa história para conhecer como
se deu a transformação na região.
Formação
do bairro
O local que hoje chamamos de bairro da Luz já
foi um vasto campo pantanoso. Seu nome era Campo do
Guaré ou Caminho do Guarepe – em linguagem
indígena “matas em terras molhadas”
– porque em épocas de chuva os rios Tamanduateí
e Tietê transbordavam e inundavam o local.
No
local onde foi erguida a ermida de Nossa Senhora
da Luz hoje está o Mosteiro da Luz |
O
nome Luz veio de sua posterior ocupação,
no período em que eram distribuídas
datas e sesmarias pela metrópole
aos colonizadores portugueses. Uma dessas datas
foi doada em 1583 a Domingos Luiz – mais
conhecido como o Carvoeiro. Em sua terra, Domingos
Luiz ergueu uma ermida em homenagem à sua
santa de devoção Nossa Senhora da
Luz, cunhando definitivamente o nome do bairro. |
O antigo caminho do Guaré foi
ocupado durante muito tempo por fazendas e o gado
andava solto pelos pastos. Mas, pouco a pouco, pântanos
foram aterrados, pontes construídas e locais
como o Jardim da Luz e o Seminário Episcopal
erguidos.
Em 1860 teve início a construção
da ferrovia The São Paulo Railway Company,
por iniciativa do Barão de Mauá, em
associação com o capital inglês,
para o escoamento da produção cafeeira
do interior para o porto de Santos.
| Dessa
forma, o bairro recebeu em 1865 a Estação
da Luz e logo depois, nas suas proximidades, a
Estação Sorocabana, o que gerou
profundas mudanças no bairro. A área
se valorizou e a administração pública
realizou obras de melhoria integrando o bairro
ao centro da cidade. O comércio no entorno
da estação diversificou-se para
atender os viajantes com hotéis e restaurantes. |
Segundo
prédio da Estação Sorocabana.
O terceiro prédio (contíguo),
inaugurado em 1938, hoje abriga a Sala São
Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do
Estado de São Paulo (OSESP).
|
A Luz tornou-se um local aprazível.
A atual Avenida Tiradentes era um arborizado boulevard
e os paulistanos freqüentavam o Jardim da Luz
nos finais de semana. Nos Campos Elíseos, bairro
vizinho, a elite do café construiu seus palacetes.
E bairros populares surgiram nas proximidades para
abrigar os trabalhadores das ferrovias e do comércio
local.
Algumas das maiores construções
do arquiteto Ramos de Azevedo, principal idealizador
dos edifícios públicos no período,
também surgiram no final do século XIX:
a Escola Politécnica, o Liceu de Artes e Ofícios
e o Quartel da Força Pública.
Decadência
e Revitalização
Entretanto, o desenvolvimento do bairro e de toda
a cidade trouxe no bojo os fatores de sua degradação.
Por não haver mais para onde expandir, e devido
ao antigo problema de transbordamento dos rios Tamanduateí
e Tietê, o bairro foi perdendo importância
e a população começou a se dirigir
para as zonas sul e oeste.
Gradualmente, no século XX,
a utilização da ferrovia declinou e
ela perdeu sua antiga função. Além
de ter de competir com os bondes, carros e, posteriormente,
ônibus e caminhões a estação
passou a integrar o sistema metropolitano de transporte
de passageiros das regiões mais periféricas,
o que popularizou a região.

Estação Sorocabana. |
A presença de cortiços,
prostituição e comércio
de drogas desvalorizaram ainda mais o bairro,
juntamente com a implantação do
metrô e transformação da
Avenida Tiradentes em via expressa. Todos esses
fatores aliados ao caos trazido pelo eixo rodoviário
das marginais terminaram por degradar ainda
mais o bairro.
|
Recentemente,
foi fechada uma parceria dos governos federal, estadual
e municipal, para revitalização da área
central da cidade, e a Luz foi contemplada com obras
de benfeitoria e policiamento. Novos empreendimentos
imobiliários e restauros no espaço público
estão previstos, o que pode melhorar problemas
urbanísticos como o aspecto visual do local.
A prefeitura passou a realizar vistorias em bares,
hotéis e ruas para combater a criminalidade,
prostituição e venda e consumo de drogas,
principalmente na região que ficou conhecida
como Cracolândia, localizada próximo
ao bairro.
Mas para resgatar a vitalidade de
outrora ainda há muito que recuperar, principalmente
no que se refere a segurança e ao atendimento
das necessidades da população que mora
nas ruas do bairro. Para que todos possam, dessa forma,
desfrutar desse antigo e belo espaço da cidade.
*Datas: Porções
de terra. Também pode se referir a jazidas
de mineração de ouro ou pedras preciosas.
Livros Consultados
Athayde, Clovis. Luz - notícias
e reflexões. São Paulo: Departamento
do Patrimônio Histórico, 1988.
Ponciano, Levino. São Paulo: 450 anos,
450 bairros. São Paulo. Editora Senac,
2004.
ELIAS, Maria Beatriz de Campos (org.) Um século
de Luz. Coleção Mosaico. Ensaios &
Documentos. São Paulo. Editora Scipione,
2001.
Albarello, Eduardo; Soukef, Antonio; Mazzoco, Maria
Inês Dias. Cem anos Luz. São
Paulo. Dialeto Latin American Documentary, 2000.
Links
Conheça
a história de outros bairros de São
Paulo
Sampa
Online
Conheça
a história do bairro que nasceu de um movimento
social
Museu
de Arte Sacra
História da Estação Sorocabana/Júlio
Prestes
Sampa
Centro
Estação da Luz
|