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território oficial Geógrafo propõe metodologia para delimitar os bairros de São Paulo por Gilberto Stam Bairros deveriam ter extensão e população médias de 0,7 km2 e 8 mil habitantes, com limites que respeitem elementos da paisagem, como avenidas, rios ou ferrovias. Para geógrafo, a oficialização dos bairros vai favorecer o exercício da cidadania e a administração pública.
Mas, para quem mora em São Paulo, fazer parte de um bairro significa também ter “crises” de identidade. Isso porque os bairros da cidade, cuja origem, em sua maioria, remonta ao loteamento de fazendas e propriedades, não possuem uma fronteira geográfica estabelecida. Tanto é que os mapas da cidade mostram os nomes, mas não os limites entre eles. Além disso, não existe uma nomenclatura padronizada, mas diversas denominações que surgiram ao longo da história. Esse é o caso do bairro do Sumaré, também conhecido como Perdizes, Pompéia, e Vila Pompéia. Cerqueira César, por sua vez, também é chamado de Jardins ou Consolação. Já o Jardim Sônia é denominado como Jardim Santa Inês, Parque Modelo ou Jardim Carlu. A multiplicidade ocorre porque existem diversos sistemas de classificação de bairros – o dos Correios,da Prefeitura, da Eletropaulo, da Mapograf, para citar apenas alguns - sendo que cada um segue seus próprios critérios. Para aqueles que moram no limite entre bairros, a confusão costuma ser maior. Para resolver essa situação, foi incluído no Plano Diretor Estratégico da cidade uma lei que determina que seja realizada a delimitação dos bairros da cidade. No entanto, definir os critérios para essa divisão não é algo tão simples, do ponto de vista técnico, sendo que a própria prefeitura afirma que isso seria inviável (veja Box), alegando que os bairros são entidades dinâmicas e de contorno notadamente indefinido. Mas essa não é a opinião do geógrafo José Donizete Cazzolato, que desenvolveu em sua dissertação de mestrado uma proposta metodológica para resolver o problema. O geógrafo trabalhou durante 30 anos na empresa Geomapas, período em que conheceu boa parte da cidade – e quase metade dos cerca de 1.500 bairros existentes, conforme sua própria estimativa.
No lado mais prático, reconhecer um determinado território oficialmente como um bairro pode significar que determinados serviços deveriam ser oferecidos no local: um posto de saúde, uma escola, uma delegacia de polícia, até mesmo uma Igreja. “É a partir do reconhecimento e da identificação com o espaço em que vivemos que passamos a interagir com esse local, o que serve de motivação para a organização coletiva e a demanda por melhorias, reforçando a cidadania”, diz Cazzolato. A redução da escala administrativa seria especialmente importante porque o município de São Paulo está fora dos padrões do resto do país, já que a população é maior do que estados como Rio Grande do Sul e países como Portugal ou Suécia. A divisão oficial dos bairros proporcionaria uma maior descentralização da administração pública, fazendo com que esta ficasse próxima dos cidadãos. Uma outra vantagem seria padronizar as classificações existentes. Hoje, o sistema de CEPs é a principal referência para a denominação dos bairros, mas isso não elimina as confusões. “Muitas pessoas nos procuram, reclamando do nome do bairro designado para sua região”, diz Osmarina de Santana, responsável pela manutenção do cadastro de CEP na Região Metropolitana de São Paulo. “Com freqüência, moradores da mesma rua querem coisas diferentes, mas geralmente eles querem a designação do bairro tido como mais valorizado no mercado”. Outra divisão importante é a do IBGE, que reparte a cidade em Setores Censitários. "Porém, assim como a dos Correios, não é uma divisão adequada, porque fragmenta regiões tradicionalmente reconhecidas como bairros", diz Cazzolato. A sinalização da cidade também poderia ser aprimorada com bairros definidos, facilitando assim a difícil localização e circulação pela cidade. “Nós tentamos desenvolver um sistema de sinalização com indicação dos bairros da cidade, mas desistimos porque não havia uma divisão oficial”, diz Daphne Savoy, coordenadora de sinalização e orientação da CET. Como dividir? Cazzolato define algumas prioridades na hora de definir o traçado. “Em primeiro lugar, é importante que os limites respeitem os elementos da paisagem e sejam de fácil percepção, com uma geometria a mais simples possível e bem definida”. Por isso, o primeiro critério para desenhar um bairro é aproveitar como fronteira os rios, avenidas, trilhos de trem, linhas de transmissão, dutos e grandes equipamentos (parques, aeroportos etc.).
Outros aspectos importantes seriam a extensão e a população, como forma de garantir a eqüidade territorial. O geógrafo fez um cálculo da extensão média dos cerca de 1.500 bairros de São Paulo, não incluindo no cálculo distritos muito grandes e pouco habitados, como o Marsilac. "O resultado foi uma extensão média de 0,4 a 1,5 km2, e uma população média de 4 a 16 mil pessoas. Com esses parâmetros, a distância máxima entre um ponto periférico e o centro do bairro seria de 800 a 1.400 m, uma distância caminhável". A vantagem de uma população
não muito grande é que isso favoreceria a participação
na vida do bairro. Em sua dissertação, o geógrafo
explica que a sugestão de 8 mil pessoas praticamente coincide
com uma pesquisa americana da década de 1970, em que um grupo
de arquitetos afirma que um indivíduo não tem voz efetiva
em comunidades com mais de 7 mil pessoas. Essa pesquisa mostra também
que esse número apareceu diversas vezes na história, desde
a Grécia antiga, em Atenas, no livro de Confúcio sobre
o governo e no plano democrático de Jefferson para os Estados
Unidos.
Links Leia íntegra da dissertação de dissertação de José Donizete Cazzolato.
SPOSATI, Aldaíza. Cidade em Pedaços. Editora Brasiliense. São Paulo, 2001. DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A Dinâmica dos Nomes na Cidade de São Paulo. Editora Annablume. São Paulo, 1997. BARROS, Sandra Augusta Leão. O que são Bairros: Limites Político-Administrativos ou Lugares Urbanos da Cidade? O caso de Apipucos e Poço da Panela no Recife. Editora Livro Rápido/Fapesp/UFRPE. Recife 2004. MALTA, Candido. Reinvente seu Bairro. Editora
34. São Paulo, 2003. |
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