Número Oito- janeiro/fevereiro/março de 2006
Reportagens

E assim fez-se a Luz
Antigo bairro nobre, Luz luta hoje por sua revitalização
por Audrey Camargo

O grandioso conjunto arquitetônico do bairro da Luz revela como o local foi nobre e valorizado. Esse patrimônio, atualmente utilizado para abrigar instituições culturais como o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), a Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado, entre outros, há alguns anos contrasta com a pobreza e a degradação do entorno. A revista diverCIDADE foi resgatar essa história para conhecer como se deu a transformação na região.

Formação do bairro

O local que hoje chamamos de bairro da Luz já foi um vasto campo pantanoso. Seu nome era Campo do Guaré ou Caminho do Guarepe – em linguagem indígena “matas em terras molhadas” – porque em épocas de chuva os rios Tamanduateí e Tietê transbordavam e inundavam o local.


No local onde foi erguida a ermida de Nossa Senhora da Luz hoje está o Mosteiro da Luz
O nome Luz veio de sua posterior ocupação, no período em que eram distribuídas datas e sesmarias pela metrópole aos colonizadores portugueses. Uma dessas datas foi doada em 1583 a Domingos Luiz – mais conhecido como o Carvoeiro. Em sua terra, Domingos Luiz ergueu uma ermida em homenagem à sua santa de devoção Nossa Senhora da Luz, cunhando definitivamente o nome do bairro.

O antigo caminho do Guaré foi ocupado durante muito tempo por fazendas e o gado andava solto pelos pastos. Mas, pouco a pouco, pântanos foram aterrados, pontes construídas e locais como o Jardim da Luz e o Seminário Episcopal erguidos.

Em 1860 teve início a construção da ferrovia The São Paulo Railway Company, por iniciativa do Barão de Mauá, em associação com o capital inglês, para o escoamento da produção cafeeira do interior para o porto de Santos.

Dessa forma, o bairro recebeu em 1865 a Estação da Luz e logo depois, nas suas proximidades, a Estação Sorocabana, o que gerou profundas mudanças no bairro. A área se valorizou e a administração pública realizou obras de melhoria integrando o bairro ao centro da cidade. O comércio no entorno da estação diversificou-se para atender os viajantes com hotéis e restaurantes.


Segundo prédio da Estação Sorocabana.
O terceiro prédio (contíguo), inaugurado em 1938,
hoje abriga a Sala São Paulo, sede da
Orquestra Sinfônica doEstado de São Paulo (OSESP).

A Luz tornou-se um local aprazível. A atual Avenida Tiradentes era um arborizado boulevard e os paulistanos freqüentavam o Jardim da Luz nos finais de semana. Nos Campos Elíseos, bairro vizinho, a elite do café construiu seus palacetes. E bairros populares surgiram nas proximidades para abrigar os trabalhadores das ferrovias e do comércio local.

Algumas das maiores construções do arquiteto Ramos de Azevedo, principal idealizador dos edifícios públicos no período, também surgiram no final do século XIX: a Escola Politécnica, o Liceu de Artes e Ofícios e o Quartel da Força Pública.

Decadência e Revitalização

Entretanto, o desenvolvimento do bairro e de toda a cidade trouxe no bojo os fatores de sua degradação. Por não haver mais para onde expandir, e devido ao antigo problema de transbordamento dos rios Tamanduateí e Tietê, o bairro foi perdendo importância e a população começou a se dirigir para as zonas sul e oeste.

Gradualmente, no século XX, a utilização da ferrovia declinou e ela perdeu sua antiga função. Além de ter de competir com os bondes, carros e, posteriormente, ônibus e caminhões a estação passou a integrar o sistema metropolitano de transporte de passageiros das regiões mais periféricas, o que popularizou a região.


Estação da Luz.

A presença de cortiços, prostituição e comércio de drogas desvalorizaram ainda mais o bairro, juntamente com a implantação do metrô e transformação da Avenida Tiradentes em via expressa. Todos esses fatores aliados ao caos trazido pelo eixo rodoviário das marginais terminaram por degradar ainda mais o bairro.

 

Recentemente, foi fechada uma parceria dos governos federal, estadual e municipal, para revitalização da área central da cidade, e a Luz foi contemplada com obras de benfeitoria e policiamento. Novos empreendimentos imobiliários e restauros no espaço público estão previstos, o que pode melhorar problemas urbanísticos como o aspecto visual do local.

A prefeitura passou a realizar vistorias em bares, hotéis e ruas para combater a criminalidade, prostituição e venda e consumo de drogas, principalmente na região que ficou conhecida como Cracolândia, localizada próximo ao bairro.

Mas para resgatar a vitalidade de outrora ainda há muito que recuperar, principalmente no que se refere a segurança e ao atendimento das necessidades da população que mora nas ruas do bairro. Para que todos possam, dessa forma, desfrutar desse antigo e belo espaço da cidade.

*Datas: Porções de terra. Também pode se referir a jazidas de mineração de ouro ou pedras preciosas.

 

Livros Consultados

Athayde, Clovis. Luz - notícias e reflexões. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico, 1988.

Ponciano, Levino. São Paulo: 450 anos, 450 bairros. São Paulo. Editora Senac, 2004.

ELIAS, Maria Beatriz de Campos (org.) Um século de Luz. Coleção Mosaico. Ensaios & Documentos. São Paulo. Editora Scipione, 2001.

Albarello, Eduardo; Soukef, Antonio; Mazzoco, Maria Inês Dias. Cem anos Luz. São Paulo. Dialeto Latin American Documentary, 2000.

Links

Conheça a história de outros bairros de São Paulo

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Conheça a história do bairro que nasceu de um movimento social

Museu de Arte Sacra

História da Estação Sorocabana/Júlio Prestes


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Estação da Luz

 
 
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