Número Oito- janeiro/fevereiro/março de 2006
Reportagens

Se estas paredes falassem... 

Um dos casarões mais belos da Vila Mariana conta uma história fascinante que envolve grandes personalidades de nossa cultura. Desde o início do século 20, filósofos, escritores, políticos e doutores em ciências humanas ali se reúnem para discutir a realidade brasileira.



Casarão construído por Eugéne Gazeau
O casarão da rua Morgado de Mateus, 615, começou do sonho de Madalene e Eugéne Gazeau, o mais antigo livreiro da cidade que serviu a várias gerações de mestres e professores. Ele veio da França em 1910 para montar com o irmão a "Livraria Gazeau", o primeiro sebo do Brasil - localizado na esquina da rua Benjamin Constant com a Praça da Sé.

Era ali que os intelectuais tinham acesso aos importantes livros da literatura mundial, até então raros ou inexistentes no país. Gazeau não era apenas um vendedor de livros, mas um filósofo que estudava célebres pensadores brasileiros, como o poeta Tobias Barreto e o filósofo Faria Brito, e um orientador das leituras de sedentos clientes por conhecimento.

O livreiro conviveu com grandes personalidades. Eram seus clientes Rodrigues Alves, Brasilio Machado, Candido Motta, Alfredo Pujol, Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Martins Fontes, Monteiro Lobato, entre outros que, desde aquele tempo, tinham dificuldades de sobreviver com seu trabalho: "Alguns deles, na época, não tinham dinheiro e meu pai vendia os livros mais barato", conta sua filha, Odete Gazeau Nascimento.
Gazeau casou-se como Madalene, em 1913, e planejaram construir o belo casarão, concluído em 1930: "O projeto era uma casa térrea, mas quando ela estava quase pronta, decidiram que seria um sobrado", recorda Odete.

Em 1955, Eugéne Gazeau, ao atravessar a rua Sena Madureira, foi atropelado por um caminhão. A notícia de sua morte ganhou os jornais da época e o pesar de intelectuais que buscavam seu conhecimento."A figura de Eugéne Gazeau mereceu o respeito público e, em nosso meio, seu nome representa uma tradição", escreveu Ernesto Sépe para o jornal "Fanfulla".

"Ainda vivemos alguns anos na casa", que no começo da década de 60 foi vendida para uma imobiliária. O comprador - vejam só! - pretendia demolir o casarão para construir um prédio. No entanto, um vizinho deputado achou um absurdo e embargou a obra. O imóvel foi repassado para a agência de publicidade Salles/Interamericana e, em 1979, mais uma vez mudou de mãos. Foi adquirido pelo Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - uma instituição de pesquisa acadêmica na área de ciências humanas na qual sociólogos, cientistas políticos, filósofos, historiadores, antropólogos, demógrafos, entre outros doutores, analisam e desenvolvem estudos sobre a realidade brasileira. "Lembro-me de que anos mais tarde tive que assinar um papel solicitado pelo atual proprietário da casa e o Fernando Henrique Cardoso estava lá", conta Odete.

O fato é que o ex-presidente fez parte da direção do Cebrap, fundada por professores universitários afastados de suas funções pela ditadura militar. Ao cruzar informações e buscar as lembranças de antigos moradores, o Pedaço da Vila descobriu que a casa – que a vizinhança sempre pensou ser de FHC – era realmente da Cebrap, mas utilizada para as reuniões da alta cúpula do PSDB: "Fui em inúmeras reuniões na rua Morgado de Matheus", revelou o secretário das Subprefeituras Walter Feldman, em agosto de 2005, durante sua entrevista ao jornal.

Eugéne Gazeau


O imponente casarão contruído por Eugéne Gazeau, graças ao vizinho deputado, não foi demolido como tantos outros que guardavam muitas histórias. Neste caso, o espírito de seu primeiro proprietário também foi preservado: a casa, que na década de 30 reunia célebres amigos para falar de política e filosofia, continuou a abrigar encontros de pensadores: na década de 80, os intelectuais do PSDB e, hoje, doutores de diversas áreas das ciências humanas que analisam a realidade brasileira e desenvolvem estudos para torná-la melhor. O velho Gazeau deve estar feliz!
Texto Publicado no Jornal Pedaço da Vila em fevereiro de 2006.

*Escrito por Denise Delfim e publicado no jornal de bairro da Vila Mariana "Pedaço da Vila" n° 47.
 
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