| Se
estas paredes falassem... Um dos casarões mais belos da Vila Mariana conta uma história fascinante que envolve grandes personalidades de nossa cultura. Desde o início do século 20, filósofos, escritores, políticos e doutores em ciências humanas ali se reúnem para discutir a realidade brasileira.
O livreiro conviveu com grandes personalidades. Eram seus clientes Rodrigues Alves, Brasilio Machado, Candido Motta, Alfredo Pujol, Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Martins Fontes, Monteiro Lobato, entre outros que, desde aquele tempo, tinham dificuldades de sobreviver com seu trabalho: "Alguns deles, na época, não tinham dinheiro e meu pai vendia os livros mais barato", conta sua filha, Odete Gazeau Nascimento. Gazeau casou-se como Madalene, em 1913, e planejaram construir o belo casarão, concluído em 1930: "O projeto era uma casa térrea, mas quando ela estava quase pronta, decidiram que seria um sobrado", recorda Odete. Em 1955, Eugéne Gazeau, ao atravessar a rua Sena Madureira, foi atropelado por um caminhão. A notícia de sua morte ganhou os jornais da época e o pesar de intelectuais que buscavam seu conhecimento."A figura de Eugéne Gazeau mereceu o respeito público e, em nosso meio, seu nome representa uma tradição", escreveu Ernesto Sépe para o jornal "Fanfulla". "Ainda vivemos alguns anos na casa", que no começo da década de 60 foi vendida para uma imobiliária. O comprador - vejam só! - pretendia demolir o casarão para construir um prédio. No entanto, um vizinho deputado achou um absurdo e embargou a obra. O imóvel foi repassado para a agência de publicidade Salles/Interamericana e, em 1979, mais uma vez mudou de mãos. Foi adquirido pelo Cebrap – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - uma instituição de pesquisa acadêmica na área de ciências humanas na qual sociólogos, cientistas políticos, filósofos, historiadores, antropólogos, demógrafos, entre outros doutores, analisam e desenvolvem estudos sobre a realidade brasileira. "Lembro-me de que anos mais tarde tive que assinar um papel solicitado pelo atual proprietário da casa e o Fernando Henrique Cardoso estava lá", conta Odete.
O imponente casarão contruído por Eugéne Gazeau, graças ao vizinho deputado, não foi demolido como tantos outros que guardavam muitas histórias. Neste caso, o espírito de seu primeiro proprietário também foi preservado: a casa, que na década de 30 reunia célebres amigos para falar de política e filosofia, continuou a abrigar encontros de pensadores: na década de 80, os intelectuais do PSDB e, hoje, doutores de diversas áreas das ciências humanas que analisam a realidade brasileira e desenvolvem estudos para torná-la melhor. O velho Gazeau deve estar feliz! Texto Publicado no Jornal Pedaço da Vila em fevereiro de 2006. |
||||
| *Escrito por Denise Delfim e publicado no jornal de bairro da Vila Mariana "Pedaço da Vila" n° 47. | ||||