Edição Especial
NÚMEROS 10-11
jul.-dez. de 2006
PROTAGONISMO FEMININO E MERCADO DE TRABALHO
> APRESENTAÇÃO
VÍDEO-COBERTURA
> Assista a vídeo-cobertura do colóquio "Novas formas do trabalho e do desemprego: Brasil, Japão e França, numa perspectiva comparada"
VÍDEO-ENTREVISTAS
> Helena Hirata, diretora do laboratório Genre, Travail, Mobilités (GTM), na França, fala sobre a situação da mulher trabalhadora no mundo globalizado
MATÉRIA
> Mulheres trabalhadoras de ontem e de hoje, uni-vos?
SLIDE SHOW
> Trabalho feminino: histórico quadro a quadro
REPORTAGEM HÍBRIDA
> Como uma família chefiada por mulheres se relaciona?
Texto e video contrastam a visão da psicanálise sobre as novas organizações familiares e a realidade das chefes de família de moradoras de Guianazes e Vila Nova Esperança
ARTIGO ASSINADO
> A participação das mulheres na família e no mercado de trabalho: conquistas e desafios futuros, por Márcia Lima, pesquisadora do CEM/Cebrap
> Famílias monoparentais e pobreza, por Sandra Gomes e Thais Pavez, pesquisadoras do CEM / Cebrap
PERFIL
> Cláudia Mesquita, diretora de "Cinco mulheres de Paraisópolis", fala sobre o papel da mulher na favela
RESENHAS
> "O sacrifício" e seu uso típico-ideal na análise do protagonismo feminino
SP EM DEBATE
> Quais são as implicações da mulher como chefe de família para o próprio conceito de família?
NOTÍCIAS
> Leia últimas notícias do CEM
Resenha

O Sacrifício e seu uso típico-ideal na análise do protagonismo feminino

Rafael Duarte Oliveira Venancio

O senso comum sempre prega que refilmagens ou seqüências de filmes de enorme sucesso dificilmente dão certo. Em turnê mundial, O Sacrifício (The Wicker Man – EUA/2006 - 102 min), parece seguir essa regra ao ter uma péssima recepção da audiência e dos críticos. Só como um breve exemplo, o Hollywood Reporter, veiculado pela agência de notícias Reuters, anuncia logo na manchete que o filme com Nicolas Cage é um “remake decepcionante” e sentencia que a trama “acaba por suscitar mais risos do que pavor”.
Entretanto, o remake do filme cult britânico O Homem de Palha (1973) possui uma virtude quando comparamos com o original. Graças à intervenção do diretor e roteirista da versão atual, Neil LaBute, podemos utilizar a trama em uma reflexão típica-ideal do protagonismo feminino.

Antes de iniciar a reflexão propriamente dita, se faz pertinente uma introdução acerca da chave de leitura utilizada. O método típico-ideal ou tipo ideal representa uma virada metodológica no campo da Sociologia. Introduzido por Max Weber, o tipo ideal, em poucas palavras, é “uma construção mental. Estrutura-se pela exageração ou acentuação de um ou mais traços, ou pontos de vista, observáveis na realidade. Raramente se encontram, se é que se encontram, na própria vida, fenômenos que correspondem com exatidão ao tipo mentalmente construído”, afirmam Adriana Vieira e Alexandre Carrieri.

Com isso, podemos considerar as utopias e as distopias ficcionais como tipos ideais. Tramas literárias como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou cinematográficas como Metropolis, de Fritz Lang, e a trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski, podem ser utilizadas em reflexões acerca de aspectos sociais que utilizam esse método.

O Sacrifício, diferentemente do original O Homem de Palha, é uma distopia ficcional. Essa diferença está na inversão do lugar da trama, pois, antes ela estava situada em uma sociedade escocesa com reminiscências celtas. Na versão de LaBute, Summersisle vira uma sociedade matriarcal devido à preferência do diretor, em seus filmes, por um ponto de vista mais feminista.

Na sociedade retratada, podemos dizer que o protagonismo feminino é levado ao extremo, pois todas as posições de poder são ocupadas por mulheres e há a restauração do direito materno. Exemplos disso podem ser percebidos através das cenas onde as mulheres se chamam de “Irmãs” e na configuração dos nomes das garotas com sobrenome das mães.

Olhares de Engels e LaBute acerca da feminização do mundo

Essa feminização do mundo que, de certa forma, é pregada por feministas de hoje e de ontem, possui diversos significados analíticos. Para Friedrich Engels, em seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, a situação de exclusão e de luta de classes é originada pela ascensão do direito paterno em detrimento do materno.

Explicada por ele através da alegoria do julgamento de Orestes utilizada por Johan Bachofen, essa ascensão representaria a derrota do sexo feminino na história universal e a degradação da mulher em servidora. Porém, essa não seria a única conseqüência para a constituição social.

Segundo Engels, em sociedades onde o direito materno era dominante, como a gens iroquesa, havia um regime de igualdade social. Citando o livro Ancient Society de Lewis H. Morgan, base fundamental de sua análise, ele afirma que os membros da gens iroquesa eram livres e todos tinham os mesmos direitos, sem qualquer tipo de superioridade. “Liberdade, igualdade e fraternidade, apesar de nunca formulados, eram os princípios cardeais da gens. Essa era a unidade de todo um sistema social, a base da organização da sociedade indígena”, afirma Engels baseado em Morgan.

Conseqüentemente, a sociedade civilizada estaria baseada, então, no direito paterno e na sociedade de classes. O objetivo de Engels, ao fazer tal análise, era mostrar que a família, a sociedade e o Estado nunca foram assentados nos mesmos padrões organizacionais e que, graças a isso, era inevitável o desaparecimento das ordens atuais dando um ar determinista à revolução do proletariado.

Além disso, Engels abriu espaço para a interpretação das feministas que o direito materno, ou seja, a feminização do mundo seria a forma de revolucionar a ordem vigente, como lembra o manifesto Para Pensar o Feminino, do Coletivo Lua. Entretanto, alguns conceitos precisam ser matizados.

Para isso, vamos colocar a gens iroquesa de Engels como tipo ideal do “protagonismo feminino como igualdade de classes”. Em contraposição, utilizaremos Summersisle de O Sacrifício como tipo ideal de contraposição, ou seja, “protagonismo feminino como opressão”.

Essa constatação está na própria trama cinematográfica, pois, basta perceber a clara ausência de homens na sociedade matriarcal para onde Edward Malus (Nicolas Cage) foi investigar a denúncia do sumiço de uma menina da comunidade. Os poucos homens que aparecem são mudos, assustados e, praticamente, escravizados como se fossem abelhas operárias.

Aliás, o simbolismo acerca das abelhas permeia o filme e é essencial para a sua compreensão. De certa forma, as “Irmãs” governadas por Irmã Summersisle (Ellen Burstyn) se organizam como as abelhas que cultivam. Lembrando sempre que há um forte imaginário feminino acerca da organização das abelhas devido à baixa participação dos machos e a função meramente reprodutiva, seguida de morte, do zangão.
Esses elementos se acentuam já que o filme é um distopia de terror e, como toda trama desse gênero, o temor tem que ser cultivado. Toda a caracterização fetichizada dos homens, representada pelas lições da professora Irmã Rose (Molly Parker), designa o direito materno apenas como uma feminização do direito paterno opressor.

Comparando tipos ideais

A comparação de tipos ideais serve para refletir acerca da posição atual da nossa sociedade, no caso, acerca do protagonismo feminino. A tendência atual é que o protagonismo feminino continue crescendo em nossa sociedade, porém sempre há o receio de uma mera troca de papéis, como mostravam charges do anos 40 aonde as mulheres ia trabalhar e o homem executaria o papel de oprimido na família e na sociedade.

Desse modo, a conseqüência do protagonismo feminino fica mais próxima do tipo ideal de O Sacrifício, onde podemos perceber apenas uma mera substituição da opressão masculina pela feminina, do que o tipo ideal da gens iroquesa. A saída seria despolarizar as relações de gênero entre mulheres e homens, como prega a teórica feminista crítica Nancy Fraser, retratada no artigo Mulheres trabalhadoras de ontem e de hoje, uni-vos? dessa edição.

Interessante pensar que, para chegar nessa proposição conclusiva, Fraser também utilizou o método típico-ideal, como base na noção de reconhecimento (seja de gênero, de raça ou de opção sexual) e não o protagonismo feminino.

Fica claro que, nesse começo de século XXI, a ascensão da mulher como protagonista só está no seu início e se configura como um amplo campo de estudos sócio-políticos, familiares e econômicos. Assim, isso acaba por refletir na produção cultural da atualidade. Uma leitura mais atenta de filmes, considerados fracos ou não, como O Sacrifício, podem nos dar material para as reflexões futuras acerca do tema.

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